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Quando o bom-dia vira parte da paisagem urbana de Bagé

Uma observação simples sobre comportamento, presença e convivência em um ponto comum da cidade.

Em Bagé, como em qualquer cidade média do sul do país, a rotina começa cedo. Pessoas caminhando com pressa, carros disputando espaço, portas automáticas abrindo e fechando, sacolas sendo carregadas. Na Avenida Sete de Setembro — a principal via da cidade — esse movimento se intensifica desde as primeiras horas do dia.

É justamente em um dos pontos mais conhecidos dessa avenida, na sinaleira onde por muitos anos funcionou o Supermercado Nacional e onde hoje está instalado o Supermercado Nicolini, que a cena se repete diariamente. Localizado na região central, em diagonal à Praça de Esportes de Bagé, o trecho concentra um fluxo constante de pedestres e veículos, independentemente do horário.


Nesse movimento contínuo, algo chama a atenção — não por ser chamativo, mas justamente pelo contrário. Um homem permanece em frente ao estabelecimento e cumprimenta as pessoas que passam. Não apenas quem entra ou sai do supermercado, mas também quem atravessa a Avenida Sete de Setembro, quem caminha pela calçada oposta, quem parece apressado ou distraído. Um simples “bom-dia”, repetido dezenas de vezes ao longo da manhã.


Não há pedido, não há abordagem insistente, não há tentativa de prolongar conversa. O cumprimento acontece e segue seu caminho. Algumas pessoas respondem de imediato. Outras demoram um segundo a perceber que o “bom-dia” foi direcionado a elas. Algumas seguem em frente, mas nos dias seguintes passam a responder. Aos poucos, o gesto deixa de ser estranho e passa a integrar a dinâmica daquele ponto da cidade.


O efeito não é espetacular nem teatral. Não há aglomeração, não há comoção. O que se percebe é algo mais sutil: pessoas desaceleram levemente, erguem o olhar, ajustam a postura. Em um ambiente urbano onde o padrão costuma ser não se olhar e não se reconhecer, o simples ato de cumprimento cria uma pequena quebra na lógica automática da rotina.


Bagé, como tantas outras cidades, vive um tempo em que quase tudo virou transação. Compra-se, vende-se, entra-se, sai-se. As interações tendem a ser funcionais, rápidas e objetivas. Dentro desse cenário, qualquer comportamento que não esteja ligado a uma troca direta chama atenção — não por ser extraordinário, mas por ser raro.


O que se observa ali não é caridade, não é performance, não é campanha. É presença. Uma presença constante, previsível, sem discurso e sem intenção aparente de ser exemplo. Justamente por isso, funciona. O gesto não exige resposta, não cobra retorno, não constrange. Ele simplesmente acontece, todos os dias, no mesmo cruzamento da Avenida Sete de Setembro.


Com o passar do tempo, o cumprimento passa a ser esperado. Pessoas que já conhecem o ritual antecipam o “bom-dia”. Outras explicam para quem está junto: “ele sempre cumprimenta todo mundo”. Sem placas, sem redes sociais e sem narrativa construída, aquele ponto da sinaleira passa a carregar uma identidade própria dentro do cotidiano urbano.


Talvez seja isso que torne a cena relevante do ponto de vista da cidade. Em uma época em que tanto se fala sobre engajamento, conexão e pertencimento, um gesto mínimo, repetido com constância, acaba produzindo exatamente isso — sem discurso, sem estratégia e sem intenção declarada.


Bagé segue seu ritmo. A Avenida Sete de Setembro continua movimentada. O supermercado abre e fecha suas portas. As pessoas seguem passando. E ali, em um dos cruzamentos mais conhecidos da cidade, o simples ato de reconhecer o outro continua funcionando — silenciosamente — como parte da paisagem urbana.


ASSINATURA

Redação Portal Bagé

Observação Urbana

 
 
 

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